
Jornal Nacional/ Reprodução
Os medicamentos emagrecedores baseados em incretinas — hormônios intestinais que regulam a liberação de insulina e o apetite — transformaram o tratamento da obesidade. Entre eles estão os agonistas de GLP-1, caso da semaglutida, e os duplos agonistas de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida, hoje responsáveis por um dos mercados mais dinâmicos da indústria farmacêutica.
O crescimento surpreendeu até analistas experientes: em 2023, projetava-se que as vendas globais atingiriam US$ 100 bilhões no início da próxima década. Um ano depois, a estimativa foi revisada para US$ 150 bilhões, refletindo a demanda muito acima do previsto.
Esse momento de expansão acelerada, porém, coincide com uma inflexão importante para a indústria. Entre 2025 e 2029, o setor enfrenta o vencimento simultâneo de patentes em diversas áreas terapêuticas — o chamado Abismo de Patentes 2.0.
A perda da exclusividade de produção pode gerar perdas líquidas globais estimadas em US$ 90 bilhões ao abrir espaço para genéricos e biossimilares. A nova geração de medicamentos emagrecedores ocupa um papel central nessa disputa por patentes, mercados e cadeias produtivas que redefine o setor farmacêutico global.
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O Ozempic, um dos medicamentos mais conhecidos, tem como princípio ativo a semaglutida. A patente da substância, que expira em março de 2026 na China, Índia, Turquia, Canadá e Brasil, pertence ao laboratório dinamarquês Novo Nordisk.
Juntos, esses países concentram cerca de 40% da população mundial e aproximadamente 33% das pessoas com obesidade no planeta. A coincidência das datas de expiração nesses mercados estratégicos representa um desafio para a empresa.
Neste cenário altamente competitivo, não há espaço para desempenho abaixo do esperado como ocorreu com o mais recente medicamento emagrecedor desenvolvido pela Novo Nordisk, o CagriSema. A situação se agravou ainda mais para esse laboratório com o sucesso do novo fármaco do concorrente, o Zepbound da Eli Lilly.
Assim, as ações da Novo Nordisk despencaram e o valor de mercado do laboratório Eli Lilly, fabricante do Zepbound (tirzepatida, indicado para emagrecimento), superou a barreira de US$ 1 trilhão.
As novas parcerias
No fim de 2025, o laboratório Lupin, com sede em Mumbai, na Índia, fechou um acordo com a empresa Gan & Lee Pharmaceuticals, com sede em Pequim, na China, que dá ao Lupin direitos exclusivos de venda e distribuição na Índia de uma substância ainda em fase de teste, a bofanglutida, mais um análogo de GLP-1.
O fármaco é indicado para diabetes do tipo 2, e mostrou resultados de perda de peso comparáveis ou superiores à semaglutida, com a vantagem de reduzir o número de injeções necessárias aos concorrentes, exigindo apenas uma injeção a cada 14 dias.
A Lupin é a quinta maior empresa de genéricos nos Estados Unidos e oitava no mundo, presente em mais de 200 países, entre eles, Rússia, Japão, Estados Unidos, México e Brasil, com lucro de mais de US$ 80 milhões no segundo trimestre de 2025.
A parceria indo-chinesa reforça a estratégia da Lupin, inclusive no Brasil, por meio da MedQuímica (Juiz de Fora – Minas Gerais). Um dos 30 maiores laboratórios farmacêuticos nacionais, a MedQuímica tornou-se parte do Grupo Lupin em 2015.
Por sua vez, a chinesa Gan & Lee já está há algum tempo negociando diretamente com o governo brasileiro projetos de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), bem como futuras colaborações com relação a drogas emagrecedoras inovadoras como o GZR4 e a bofanglutida.
A Lupin e outro laboratório indiano, o Biocon, trabalham em parceria em alguns mercados e substâncias, e também em projetos diferentes com a Viatris/Mylan Pharmaceuticals. A Biocon é a maior farmacêutica da Índia, responsável pela movimentação de mais de US$ 1 bilhão em 2025. Isso alavanca o alcance global dos indianos na comercialização de biossimilares.
No Brasil, a Lupin fez uma parceria com o laboratório Biomm (Nova Lima, Minas Gerais), controlado pela empresa Biocon, para a comercialização de um medicamento oncológico. Mas isso não impede que esses laboratórios operem como concorrentes no país. No caso dos GLP-1, a Lupin juntamente com a MedQuímica deve oferecer bofanglutida, enquanto o Biocon, em associação com o Biomm, deve oferecer semaglutida genérica.
Imagem de uma dose inicial de 1,5 mg de Wegovy® pill
Divulgação
Medo de agulhas e versões orais
De acordo com uma pesquisa da revista científica PLOS One de 2022, 63,2% dos adultos sentem algum grau de medo de agulhas, com mais da metade evitando coleta de sangue e um terço evitando vacinas. Por isso, as marcas investem em pesquisas para versões orais. Partindo daí, é possível dimensionar o impulso recebido pelo dinamarquês Novo Nordisk para lançar, em janeiro de 2026, o Wegovy em comprimido.
A Eli Lilly não conseguiu, até o momento, a aprovação da agência reguladora americana, o FDA, para um fármaco equivalente. Na melhor das hipóteses, sua medicação oral – o orforglipron, ainda sem nome comercial – será aprovada em março de 2026.
Uma diferença decisiva entre os comprimidos dos dois laboratórios – de acordo com as respectivas bulas – parece estar na conveniência. O medicamento da Lilly pode ser tomado a qualquer hora, com ou sem comida; mas semaglutidas orais da Novo Nordisk (Wegovy, indicado para obesidade, e Rybelsus, para diabetes tipo 2 e frequentemente utilizado off-label para obesidade) requerem estômago vazio e um intervalo de 30 minutos antes comer e beber.
Em paralelo, estudos de custo-eficiência sublinham a dificuldade de comparar as apresentações orais contra os injetáveis em função da diferença das bases utilizadas. Quanto ao preço, pode variar muito, de acordo com os descontos obtidos pelos meios tradicionais (cobertura por seguros públicos e privados) e por inovações como a venda direta e as plataformas eletrônicas.
A estimativa é de que o mercado global de medicamentos emagrecedores atinja US$ 95 bilhões em 2030, dos quais 24% (cerca de US$ 23 bilhões) devem ser capturados pelas versões orais. Dentro deste segmento, a previsão do banco de investimentos Goldman Sachs é de que o comprimido da Eli Lilly deve abocanhar 60% desse segmento contra 21% do produto da Novo Nordisk.
A inovação na venda direta
Em 2024-2025, a Big Pharma passou a privilegiar os programas de venda direta ao paciente (DTP) que combinam preços transparentes em dinheiro com telessaúde e entrega em domicílio, caso da NovoCare Pharmacy (Novo Nordisk), LillyDirect (Eli Lilly), Eliquis 360 Support (Bristol Myers Squibb) e o Cosentyx DTP (Novartis) e PfizerForAll, AstraZeneca Direct, AmgenNow.
É uma transformação radical em relação ao modelo de negócio dominante. Mas não só, pois promove uma mudança clara no relacionamento com o paciente, buscando escapar de controles como o gerenciamento do preço dos medicamentos pelos planos e sistemas nacionais de saúde.
O marketing do Wegovy está voltado para consumidores que pagam do próprio bolso e não têm cobertura de seguro público ou privado. O atual CEO da Novo Nordisk, Maziar Mike Doustdar, afirmou na recente J.P. Morgan Healthcare Conference – ponto de encontro estratégico de interesses financeiros e farmacêuticos – que medicamentos para obesidade respondem melhor ao modelo de venda direta do que outros fármacos. Por isso, uma de suas metas é dominar os canais diretos ao paciente e de pagamento em dinheiro.
Mais avanços científicos e tecnológicos estão prometidos, como um spray nasal à base de semaglutida em fase de teste, a ser lançado em breve pela Shanghai Shiling Pharmaceutical, que, provavelmente será vendido por plataformas eletrônicas. Talvez até mesmo pela nacionalista Trump Rx, que, negando críticas internas e externas, promete baixar preços e promover o retorno de investimentos para os Estados Unidos.
Em meio a este contexto complexo, os medicamentos emagrecedores e seus mercados parecem depender menos da ciência e cada vez mais das relações internacionais.
Carlos Roberto Oliveira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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